— Vá para o inferno, Gondim. Você acanalhou o troço. Está pernóstico, está safado, está idiota. Há lá ninguém que fale dessa forma! Azevedo Gondim apagou o sorriso, engoliu em seco, apanhou os cacos da sua pequenina vaidade e replicou amuado que um artista não pode escrever como fala. — Não pode? — perguntei com assombro. E por quê? Azevedo Gondim respondeu que não pode porque não pode. — Foi assim que sempre se fez. A literatura é a literatura, seu Paulo. A gente discute, briga, trata de negócios naturalmente, mas arranjar palavras com tinta é outra coisa. Se eu fosse escrever como falo, ninguém me lia. RAMOS, G. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2009. VISCONTI, E. Três meninas no jardim. Óleo sobre tela, 81 × 65 cm. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, 1935. Disponível em: www.eliseuvisconti.com.br. Acesso em: 18 set. 2012. Eliseu D’Angelo Visconti (1866-1944) desenvolveu diversas obras no Brasil, com grande influência das escolas europeias. Em sua pintura Três meninas no jardim, há A culto à fluidez e ao progresso, nos moldes do ideário futurista. B valorização de formas decompostas, a exemplo do estilo cubista. C efeitos fugazes de luz e movimento, que remetem à estética impressionista. D expressão do sonho e do inconsciente, que dialoga com a proposta surrealista. E tematização de elementos cotidianos, que resgata modelos de representação da arte realista. Nesse fragmento, a discussão dos personagens traz à cena um debate acerca da escrita que